Política

Solucionando a Guerra às Drogas

Solucionando a Guerra às Drogas 1

Nas últimas semanas publiquei dois vídeos e artigos sobre a temática das Guerras às Drogas. E um dos principais problemas nos últimos 50 anos lutando essa guerra é que é quase impossível combater a oferta/os traficantes das drogas, sem antes reduzir a demanda pelas drogas/usuários. Também vimos que os métodos comuns utilizados para a luta desta guerra, como o aprisionamento e repressão policial não reduzem de uma maneira satisfatória a procura por estes produtos. 

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Isso por que o abuso e dependência de substâncias é uma consequência de uma série de variáveis que vão além da droga em si, e que levam em conta fatores como o contexto social onde os usuários vivem e características pessoais dos indivíduos que a consomem. Isso fica claro ao percebermos que comunidades com maiores índices de ansiedade e depressão, assim como maiores índices de desemprego e desigualdade social tendem a possuir mais casos de dependência química do que as que não sofrem tanto com esses problemas. Não é à toa que dependência química e depressão andam de mãos dadas. 

Mas se dependência química é o fruto de uma complexa relação entre química do cérebro, contexto social e características genéticas, como podemos criar políticas públicas que realmente reduzem o consumo de drogas em uma sociedade? 

Sendo o internacionalista que sou, eu comecei a procurar exemplos de países que tinham problemas de abuso de substâncias, mas que criaram políticas públicas que realmente reduziram o consumo de drogas na sua população.

A Islândia durante a década de 90 tinha um dos piores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas entre seus jovens e adolescentes.  

De acordo com uma pesquisa nacional de 1998, 42% dos jovens entre 15 e 16 anos tinha se embriagado de álcool no último mês. 23% deles  fumavam cigarros todos os dias e 17% admitiriam que já tinham consumido maconha ao menos uma vez na vida. 

O governo da época, começou se perguntando o básico: O que faz com que uma pessoa prove drogas pela primeira vez? O que faz com que ela continue usando? O que faz ela se tornar viciada? O que faz ela parar de usar? 

Para ajudar a responder essas perguntas eles entraram em contato com o pesquisador e psicólogo americano Harvey Milkman, que é um especialista na área de abuso de substâncias e já tinha participado de alguns programas voltados a reduzir o consumo de drogas entre a população jovem nos estados unidos. De acordo com a sua tese, os jovens experimentam uma droga pela primeira vez por uma série de motivos: por pressão social para fazer parte de um grupo, por que gostam de tomar riscos ou por que a droga simplesmente está presente e ele tem curiosidade de experimentar coisas novas. Agora, o motivo para o uso contínuo das drogas é por que as pessoas usam o hábito do uso de drogas, como uma maneira de lidar com o estresse da vida. 

Esse pesquisador percebeu uma coisa que parece óbvia, mas quando levada em consideração leva a uma mudança de comportamento importante. Ele percebeu que as pessoas não eram viciadas nas drogas em si, mas nos efeitos que elas causavam. No estado químico do cérebro que elas geram.

A ideia de que o abuso de substância é uma tentativa de chegar a um estado mental. que é possível chegar a esse estado mental de diversas maneiras, afinal de contas, as pessoas têm os mais diferentes tipos de vício, desde o uso de drogas, sexo, comida, jogos de azar, compras e até trabalho. Tudo em busca de um estado mental que gere prazer e as ajude a lidar com o stress e ansiedade. 

Então, com isso em mente, o governo Islandês começou a fazer uma pesquisa entre os adolescentes do país sobre sua rotina. Perguntando sobre a frequência do uso de drogas, quanto tempo passavam com os pais e que tipo de relacionamento tinham com eles, se faziam exercícios físicos, como eram tratados na escola e se se sentiam bem lá. Essa pesquisa foi feita em todas as escolas do país. 

Com essas informações em mãos, as autoridades islandesas tinham capacidade de analisar quais escolas e regiões tinham os maiores problemas de abuso de substâncias e portanto precisam de mais atenção, assim como a diferença nos hábitos dos jovens que bebiam, fumavam e se drogavam e os que não faziam essas coisas. Essa análise revelou  que alguns fatores tinham uma grande correlação com um estilo de vida mais saudável, como: a participação em atividades, especialmente esportes, 3 ou 4 vezes por semana, passar um certo tempo com os pais durante a semana e ter um relacionamento saudável com eles, sentir que seus professores e colegas na escola se importam com o seu bem estar e não estar na rua tarde da noite. 

Usando os dados dessa pesquisa, assim como as experiência de especialistas como o Harvey Milkman e muitos outros, um novo plano nacional de prevenção às drogas, chamado Juventude na Islândia, foi gradualmente implementado no país. 

Esse plano incluiu uma série de mudanças na legislação, como a proibição da venda de cigarros para menores de 18 anos e álcool para menores de 20, assim como a proibição da veiculação de propaganda de cigarros e bebidas alcoólicas. 

Além disso, foram criados programas de atividades esportivas e artísticas nas escolas. A ideia era criar alternativas ás drogas, para que o sentimento de pertencimento a um grupo e esse estado mental de que os jovens tanto buscavam fosse alcançado de uma maneira natural e saudável. Para que aquele mesmo estado mental fosse gerado através de atividades lícitas e saudáveis.

Nesses programas os alunos não eram tratados como se estivessem em um programa de prevenção de drogas, ao invés disso eles perguntavam pros jovens “O que você quer aprender? Música, dança, artes, esportes, artes marciais?” E a partir dessa escolha tomada pelo jovem, ele tinha um atividade onde ele podia se sentir fazendo parte de um grupo e essas atividades podiam fornecer essas alterações na química cerebral dos jovens e dar a eles o que elas precisavam para lidar melhor com a vida: algumas desejavam uma atividade que ajude a reduzir a ansiedade, outras buscavam atividades que trouxessem intensidade e emoção para a vida deles.

Também foram criados incentivos para aumentar a participação dos pais na vida escolar de seus filhos, como conselhos escolares, onde os pais dos alunos seriam membros. E também foi criado um toque de recolher para menores de idade nas cidades.

Além disso, eles mantiveram a prática de se refazer a pesquisa com os alunos todos os anos. Isso, para que as autoridades tivessem dados recentes em mãos e pudessem acompanhar o desenvolvimento dessa nova política.

Depois de anos dessa implementação eles perceberam uma mudança profunda no padrão de vida da juventude. A porcentagem de jovens que tinham tomado um porre de álcool no último mês foi de 42% em 1998, para 5% em 2016. A % de jovens que fumavam cigarro diariamente foi de 23% para 3%, e o índice de uso de maconha foi de 17% para 7%. Impressionante não é!?

Você deve estar pensando que a Islândia é um país muito diferente do Brasil, e por isso não necessariamente funcionaria aqui. Mas em 2006, quando os islandeses apresentaram os resultados dessa política para o mundo, uma série de cidades e países mostraram interesse em fazer um programa semelhante e foi criada a organização Juventude na Europa, que apesar do nome ajuda a implementar este programa em cidades que mostrem interesse ao redor o mundo. E atualmente são 35 cidades de 17 países que testaram esse método. 

O método é sempre o mesmo: Um questionário é feito com as perguntas centrais e com algumas extras feitas para o local específico onde a pesquisa será feita. Depois as informações coletadas são enviadas para a sede da organização onde eles produzem um relatório com os resultados e medidas que devem ser tomadas. Esse questionário foi feito em diversos países com tradições culturais e demográficas completamente diferentes, como Coreia do Sul, Guiné Bissau, Romênia, além de diversos outros países do bloco europeu.

 E surpreendentemente os fatores de risco para os jovens identificados na Islândia se aplicam a quase todos os lugares. É quase como se nós fossemos a mesma espécie e sofrêssemos as mesmas angústias. 

E é assim que nós temos que começar a pensar a criação de políticas públicas no brasil. Nós não devemos simplesmente replicar as coisas que funcionaram em outros lugares. Mas criar maneiras de obter dados úteis que podem nos informar melhor sobre a real causa de nossos problemas e usar evidências e o método científico para formular as melhores estratégias para combater esses problemas. Isso não só com as temáticas as que lidam com a Guerra às Drogas, mas em qualquer política pública. A gente tem que se afastar desses chavões baratos de campanha como “Bandido bom é bandido morto”, achando que eles vão resolver alguma coisa e começar a fazer política que nem gente grande. Dados, evidências, ciência e acompanhamento.  Só assim a gente vai melhorar a realidade da população brasileira. 

Bom, caso tenha interesse em saber mais sobre o assunto, assista ao vídeo abaixo onde trato do tema. Acompanhe os outros vídeos desta série, onde falo mais detalhadamente sobre a história da proibição das drogas, o interesse por trás da políticas que foram implementadas e como alguns países conseguiram solucionar este problemas com ciência e o método científico.

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Confira novidades escritas por Vitor M, apresentador e fundador do canal Batpapo que semanalmente recebe convidados especialistas em temas como política, entretenimento e tecnologia.

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